O que é a Ecologia Humana – Parte II

Na quarta-feira passada falei um pouco de Ecologia e aflorei o que é a Ecologia Humana. Hoje, exploro um pouco mais o que é, concretamente, a Ecologia Humana enquanto ciência.

Ecologia Humana

Tal como a Ecologia geral, o objecto de estudo da Ecologia Humana nasceu ao mesmo tempo que o ser humano pois, desde que este existe, que há algum tipo de perspectiva ecológico-humana do mundo (Borden, 2008).

Como vimos, a Ecologia Humana baseia-se nas ideias provenientes da Ecologia. No entanto, é uma disciplina muito ampla, que engloba o estudo das inter-relações entre os factores sociais, físicos, culturais e bióticos do ambiente e da biosfera, e as populações humanas. Por causa da especificidade do objecto de estudo principal – o ser humano – a Ecologia Humana teve de se adaptar e adoptar diversos métodos de investigação, tornando-se uma ecologia globalizante. Actualmente, esta é uma área que se dedica ao estudo das interacções entre o ser humano e o meio ambiente, de uma forma interdisciplinar.

Não foi, contudo, este o significado original do termo. Quando Robert Park e Ernest Burgess o usaram pela primeira vez em 1921, definiram a Ecologia Humana como o estudo, a nível espácio-temporal, da organização e das relações dos seres humanos em relação aos constrangimentos ambientais. Consequentemente, a Ecologia Humana foi compreendida como o estudo dos factores bióticos que influenciam a organização social e a distribuição espacial das comunidades humanas (Amaro, 1981; Lawrence, 2003).

Com o tempo, várias ciências sociais, como a Sociologia, a Psicologia ou a Antropologia, desenvolveram, “à sua maneira”, especializações em Ecologia Humana, fazendo com que a definição de Ecologia dependa da especialidade e da formação-base do autor. A Geografia, no entanto, chegou a ser considerada como um campo que deveria, ele mesmo, ser denominado de Ecologia Humana (Bruhn, 1974).

Como a Ecologia Humana estuda o ser humano numa perspectiva muito abrangente, olhando a realidade enquanto totalidade, acaba por exigir ao investigador que desenvolva os seus estudos fora da sua formação-base. Este, é um estudo complexo que obriga a uma análise pluridisciplinar, pois estão em causa diferentes grupos de variáveis, muitas vezes não apresentando inter-relações lineares (Amaro, 1981).

Deste modo, a Ecologia Humana emerge como uma poderosa estrutura organizadora para uma teoria e prática interdisciplinares. Ultrapassada a sua fase inicial, caracterizada por uma série de sub-campos de estudo nas várias áreas de estudo já existentes (como Sociologia ou Antropologia, por exemplo), a Ecologia Humana procura agora uma abordagem integrativa, ampla, cujo objectivo é o de produzir um entendimento global e integrador da fracção da sociedade que se decidiu observar (Borden, Kenneth & Hussey, 2007; Lopes, 1993; Rodrigues, 2011).

A especificidade da Ecologia Humana prende-se pelo facto do ser humano se desenvolver não só dentro de um meio natural, como dentro de um meio construído (social e fisicamente). Com este factor fortemente presente nos estudos realizados, a disciplina acabou por se dividir em duas grandes áreas: a Ecologia Cultural e a Ecologia Social. Esta última, investiga as razões que levam um grupo específico (ou estrutura social) a transformar ou gerar um meio ambiente que lhe é mais favorável. A Ecologia Cultural estuda o modo como a cultura de um grupo se adapta aos recursos naturais e à presença de outros grupos humanos (Rodrigues, 2011).

Com a Ecologia Humana, temos então uma nova perspectiva sobre tudo o que nos rodeia, que pode ser usada, por exemplo, para aprendermos a lidar com os problemas ambientais causados pelo próprio ser humano, dado que, actualmente, é praticamente unânime o facto de que o planeta atravessa uma crise ambiental. Esta crise tem mobilizado gradualmente vários segmentos da sociedade em busca da compreensão das suas causas profundas e das dimensões reais do problema, assim como de alternativas para a redução da degradação ambiental e dos seus impactos na qualidade de vida humana. Neste sentido, a Ecologia Humana tem procurado analisar a dinâmica e as inter-relações das forças propulsoras das alterações ambientais ao nível das actividades económicas, do uso da tecnologia, de comportamentos e padrões de consumo, de valores culturalmente aceites e do crescimento populacional.

Se já adorava a Sociologia (a minha formação-base), agora gosto ainda mais da Ecologia Humana! Com a Sociologia, sempre senti falta de determinados conceitos e conhecimentos das ciências naturais… e até da Psicologia! agora sinto-me completa! 😉

Dúvidas? Questões? Ideias?

Por favor não copie o meu trabalho. Se precisar de usar alguma parte ou ideia, por favor faça a respectiva citação.

Bibliografia

Amaro, Ana Maria. 1981. “Reflexão sobre o lugar da Antropo-Ecologia.” Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. (s/v): 111–119. Retrieved December 15, 2012 (http://run.unl.pt/bitstream/10362/6292/1/RFCSH3_111_119.pdf).

Borden, Richard J, Kenneth S Cline, and Travis Hussey. 2007. “A River Runs Through It : A College-Community Collaboration for Watershed-based Regional Planning and Education 1 , 2 Context : Earth , Land and Water.” Human Ecology Forum 14(1):90–100.

Borden, Richard J. 2008. “A Brief History of SHE : Reflections on the Founding and First Twenty Five Years of the Society for Human Ecology 1 The Place of Humans in the Living World.” 15(1):95–108. Retrieved December 15, 2012 (http://www.humanecologyreview.org/pastissues/her151/borden.pdf).

Bruhn, John G. 1974. “Human ecology: A unifying science?” Human Ecology 2(2):105–125. Retrieved December 15, 2012 (http://link.springer.com/10.1007/BF01558116).

Bubolz, Margaret M. and Sontag, M. Suzanne (1993). “Human Ecology Theory”. In Boss, Pauline, Doherty, William J.,  LaRossa, Ralph, Schumm, Walter R. and Steinmetz, Suzanne (Eds) (1993). Sourcebook of Family Theories and Methods. Springer US. 419-450. Retrieved December 15, 2012 (http://link.springer.com/chapter/10.1007%2F978-0-387-85764-0_17).

Campbell, Bernard (1988) [1983]. Ecologia Humana. Edições 70: Lisboa.

Carvalho, Francisco. 2007. “Da ecologia geral à ecologia humana.” Forum Sociológico 17:127–135. Retrieved January 8, 2013 (http://forumsociologico.fcsh.unl.pt/Detalhes.aspx?ID=Ed17Art13.html).

Hawley, Amos (1986). Human Ecology: A Theoretical Essay. Chicago: University of Chicago Press.

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Lawrence, Roderick J. 2003. “Human ecology and its applications.” Landscape and Urban Planning 65(1-2):31–40. Retrieved January 5, 2013 (http://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0169204602002359).

Lopes, José da Cruz. 1993. “Ecologia humana e turismo no Alto Minho.” Revista da Faculdade de Letras – Geografia IX:17–44. Retrieved January 5, 2013 (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1531.pdf).

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Rodrigues, Teresa Ferreira. 2011. “A Ecologia Humana no quadro do Ensino Universitário Português. A Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.” Retrieved January 8, 2013 (http://www.cepese.pt/portal/investigacao/working-papers/populacao-e-prospectiva/a-ecologia-humana-no-quadro-do-ensino-universitario-portugues.-a-licenciatura-em-cpri-da-universidade-nova-de-lisboa-working-paper-no10-201ca-ecologia-humana-no-quadro-do-ensino-universitario-portugues.-a-licenciatura-em-ciencia-politica-e-relacoes/cepese_wp_10-v1-pdf).

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4 respostas a O que é a Ecologia Humana – Parte II

  1. Excelente! Gostei muito de ambos os artigos e confesso que fiquei muito bem elucidada sobre a Ecologia Humana, sobre a qual não sabia muito. 🙂

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