Colher flores

Penso em Ti e Dentro de Mim Estou Completo

Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”

flor

Foi em 2006, em Maio, acho, no caminho de volta para casa – ao vir do supermercado! – que me dei realmente conta do que implica colher uma flor.

Nesse dia estava um pouco triste, andava com uns problemas, e estávamos em plena Primavera. Haviam florinhas por todo o lado, o passeio era acompanhado por uma zona de relva e eu, que adoro flores, acabei por apanhar uma para prender no meu casaco.

Sei perfeitamente que em zonas protegidas, por exemplo, não podemos apanhar flores ou plantas em geral e tem toda a lógica. Mas aquela flor em particular, amarela, pertencia a uma erva daninha e encontrava-se na relva banal da cidade.

Já tinha pensado antes sobre o sofrimento das plantas. Era vegetariana e tinha lido sobre a forma como as plantas reagem aos estímulos exteriores e como mostram, até, um certo tipo de impulsos eléctricos que podem ser relacionados com medo ou alegria, consoante o contexto.

Sempre evitei apanhar flores e, ao ter acesso àquele tipo de informação, ainda fiquei com mais certezas que o devia de fazer. Contudo, sou humana e adoro flores… o que faz com que de vez em quando não resista (embora cada vez menos!).

Mas naquele dia, em 2006, eu percebi muito mais. A flor que tinha colhido antes de chegar ao supermercado estava murcha quando voltei a passar pelo local onde a tinha apanhado. E fez-se luz! Se era para me animar, quase não teve tempo para o fazer. Por outro lado, naquele sítio em particular não haviam muitas flores, o que faz com que as pessoas que passaram depois de mim não tenham podido contemplar aquela flor e animarem-se com ela. Eu própria, ao voltar para casa, já com a flor murcha, não pude rever a viçosa flor que tinha apanhado algum tempo antes.

Mais ainda, vários insectos não puderam usufruir daquela flor, assim como a flor não cumpriu a sua função reprodutora.

É triste. Ao colhermos uma flor estamos a privar outros seres (humanos ou não) de usufruírem dela, assim como estamos a infligir algum tipo de dor, não compreendido por nós, naquela planta.

Deste modo, quando ofereço flores esforço-me por ser em vaso. Vão durar mais, vão dar flores mais vezes e ainda terão uma pegada ecológica menor do que os bouquets! Principalmente se cultivarem as vossas próprias plantas para oferta 😉

rosa

Há quatro anos atrás a minha mãe ofereceu-me uma pequena roseira. Sempre que a podo (na realidade não sou eu, mas sim o R., porque sempre fui contra – pelas razões acima mencionadas – e discutimos sempre que chega essa época), ponho as tranquinhas cortadas num vaso e quase sempre todas elas pegam! Assim, vou tendo roseiras pequenas para oferecer. Não dá sempre para as usar como prenda, claro, porque uma pessoa acaba por oferecer apenas quando estão a florir… mas se tivesse espaço para ter uma grande variedade de flores, podem ter a certeza que ia ficar conhecida como florista! ehehehe

Já tinham pensado nisto? O que pensam sobre este assunto?

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4 respostas a Colher flores

  1. 😀 Concordo contigo, prefiro flores em vaso, pois custa-me muito colher flores, embora às vezes aconteça, claro. Gostei da história das tuas roseiras! Sabes, também acredito que a poda ajude as plantas a “livrarem-se” de folhas e ramos inviáveis ou doentes. Além do mais tens o cuidado de utilizar as estacas sãs, pelo que diminuis o impacto dessa mesma “limpeza”. Mas não tenho a certeza…será assim?

    • justwiseup diz:

      Obrigada!

      Como os ramos e folha são biodegradáveis, não seria assim tão mau se fossem, pelo menos, para a compostagem – mas sim, reutilizar é sempre a melhor opção! ehehehe

      Claro que podemos ainda pensar que possivelmente assim irá ser necessário um novo vaso (embora se possa tentar reutilizar qualquer coisa), mais terra (que convém não ser comprada…)… ai! Isto de se ser amiga do ambiente é muito complicado, nada é 100% “verde”!

      O meu problema com a poda é realmente o facto de se ter cada vez mais certezas que as plantas sentem – embora de forma diferente dos humanos ou de outros animais, e que, por isso, não conseguimos formular na nossa cabeça que podem sentir dor (que será uma dor diferente da nossa, mas não sabemos se não é percepcionada pelas plantas como dor!).

      Uf… mundo belo, mas complexo!

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